Gelado, alheio, estranho, grande. E lá no canto a cama. A passos curtos vou invadindo o quase vazio do quarto, os pés parecem flutuar numa vagareza desesperadora. Ao fundo o verde desbotado da parede perde pela graça daqueles olhos, que mesmo embaçados ainda estão vívidos. Ao aproximar vejo o lençol repousado intacto, nenhum sinal de movimento, como se tivesse sido deixado ali pelo vento e simplesmente se confortado e permanecido.
Ao me ver despistou a vista para o lado oposto, descansou as pálpebras brancas e expirou o ar sem sequer um mísero ruído. Era o susto que eu repudiava e ele encenava com covardia disfarçada em heroísmo. Continuei...
Em longos e segredados segundos fui chegando. Primeiro o toque delicado nos cabelos desorganizados. Um cafuné de seda que vai deslizando e puxando minha face pra perto. A outra mão trás de volta o queixo que se encostava nos ombros. Um cheiro no pescoço que sobe até a orelha e segue pro lado direito. Sinto, agora, a textura daquela barba mal-feita e logo me encontro nariz com nariz. Os olhares com a profundidade de um abismo entorpecia ambos. Dos meus cai uma lágrima que limpa e clareia aqueles verdes abrindo passagem pra tudo que há por dentro. Então, a troca! Num suspiro coordenado se fecham.
Todos os átomos do meu corpo se agitam e cantam em uníssono, por todos os poros sai o que eu não transpiro perto de outro, a saliva me permite degustar a respiração quente. Entrego tudo que há de mim, o que na verdade sempre foi dele e guardo para devolver a cada visita... Empurro: pra lá! E ao abrir as portas novamente vejo o que ainda tenho dele: o sorriso inocente e indecente.
Pisco. Acaba-se o furor. A calma reina. Dou um beijo terno na testa suada, toco mais uma vez aqueles lábios secos e vou me afastando lentamente deixando no tato a promessa da volta.
Ando de costas para a saída, dando ré, recomeçando ou vendo tudo de trás para frente. Sinto-me pesada. Levo comigo mais dor, mais pesadelos, mais desespero, mais traumas, mais desapego, mais descrença, mais... mas, troco tudo outro vez!
Passo pela porta. Tranco e pego a chave que, se não fosse por um mero detalhe do pingente não se saberia que era ali onde eu guardava o meu amor, meu eu, meu.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
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